Recentemente, Carlos Vieira, presidente da Caixa Econômica Federal, anunciou o lançamento da plataforma de apostas online do banco estatal até o fim de novembro. No entanto, a continuidade da Caixa Bet será discutida em uma reunião entre Vieira e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos próximos dias.
A medida tem gerado críticas, pois parece contradizer o próprio discurso do governo, que adota uma postura crítica em relação ao setor. Nesse contexto, Leonardo Gadelha Sampaio, CEO da TQJ (Grupo Silvio Santos), comentou o assunto e fez uma análise sobre a atuação das loterias públicas no mercado de iGaming ao redor do mundo.
Acompanhe o artigo:
Entrada da Caixa Bet no setor de apostas não é um desvio, mas uma convergência global
Nos últimos dias, muito se discutiu sobre o lançamento da Caixa Bet e a atuação da Caixa Loterias no setor de apostas esportivas e jogos online. As críticas vão desde a suposta contradição com a missão social do banco até o receio de concorrência desigual no mercado privado.
É fato que a recepção inicial foi marcada por rejeição nas redes: pesquisas indicaram mais de 80% de comentários negativos. Mas justamente por isso é importante contextualizar: a entrada da Caixa Bet não é uma aberração brasileira.
É parte de um movimento global para migrar o jogo para o ambiente legal, seguro e supervisionado. O mundo já fez esse caminho. O Brasil está atrasado. Confira a lista:
- BCLC (Canadá) – Opera a PlayNow. +80% do GGR online provincial.
- Loto-Québec (Canadá) – +CAD$ 400 milhões/ano em cassino, apostas, poker.
- Danske Spil (Dinamarca) – Estatal. 62% do GGR digital.
- OPAP (Grécia) – Ex-estatal listada. Forte presença digital.
- Veikkaus (Finlândia) – Unificou loteria, cassino e apostas. GGR €1,1 bi em 2023.
- Norsk Tipping (Noruega) – Monopólio estatal digital. Mantém liderança mesmo com concorrência estrangeira.
- Sisal (Itália) – Ex-loteria vendida à Flutter por €1,9 bi.
- Camelot/Allwyn (Reino Unido) – 30 anos operando a loteria. Ampliou atuação digital.
- ONCE (Espanha) – Inovação digital alinhada a impacto social.
- Tabcorp (Austrália) – Ex-estatal listada. 43% do mercado digital.
Essas operadoras mostram que a combinação entre loteria pública e operação de iGaming não só é viável, como eficaz para proteger consumidores, recuperar o GGR que hoje vai para operadoras ilegais e financiar políticas públicas.
No Brasil, a Caixa Loterias é uma empresa distinta da CAIXA, com governança própria. É ela quem recebeu a licença da SPA/Ministério da Fazenda. O modelo jurídico é similar ao de dezenas de estatais ou ex-estatais no mundo.
O que importa é como será executado:
- Com responsabilidade e jogo seguro?
- Com governança clara e metas públicas?
- Com separação operacional do banco?
- Com compliance e isonomia regulatória?

Se a resposta for “sim”, o foco da Caixa Bet é combater o mercado ilegal. Hoje, cerca de R$ 20 bilhões/ano em GGR escapam ao controle do Estado, fortalecendo quem não paga impostos e não protege consumidores.
Legalizar, estruturar e fiscalizar é o único caminho para reverter esse fluxo. Nos EUA, 37 dos 50 estados já regulamentaram o iGaming.
A Loteria do Oregon opera apostas via Scoreboard, depois substituída pela DraftKings sob controle da Oregon Lottery. Em Rhode Island e New Hampshire, a DraftKings também opera sob contratos com as loterias estaduais.
A DC Lottery faz o mesmo com a GambetDC. A tendência é clara: estatais e ex-estatais lideram a digitalização do jogo no mundo. O Brasil está apenas chegando por último, e não por acaso.




