O Instituto Latino-Americano de Esports (ILAE) divulgou o Painel Sobre a Violência contra Mulheres nos Games e Esportes Eletrônicos na América Latina 2026, um dos levantamentos mais abrangentes sobre violência de gênero no ecossistema gamer da região.
Disponível gratuitamente em português e espanhol, o estudo reúne dados sobre a experiência de mulheres que participam de jogos digitais e competições de eSports em países latino-americanos. Ao todo, a pesquisa recebeu 335 respostas entre abril e maio de 2026, com predominância de participantes entre 16 e 34 anos.
Os resultados indicam um cenário preocupante para o desenvolvimento do setor. Entre os principais dados levantados pelo painel estão:
- 89,3% das participantes afirmaram já ter sofrido violência ou assédio em games ou eSports;
- 87,9% disseram ter presenciado violência contra mulheres em jogos online;
- 75,4% consideram esse tipo de comportamento muito comum no ambiente gamer;
- 71,4% acreditam que a violência foi naturalizada pela comunidade;
- Apenas 0,4% consideram o ambiente gamer plenamente seguro para mulheres.
Além da frequência dos casos, o levantamento aponta impactos diretos na permanência feminina no setor. Segundo a pesquisa, quase metade das entrevistadas reduziu sua participação em games e eSports após sofrer episódios de violência. Em outros casos, as participantes evitaram ambientes competitivos ou abandonaram atividades ligadas ao universo gamer.
Os relatos também mostram medidas adotadas para evitar novos ataques. Entre elas estão a ocultação da identidade de gênero, a não utilização de chats de voz, o afastamento de comunidades competitivas e a desistência de campeonatos, transmissões ao vivo e produção de conteúdo.
Violência afeta desenvolvimento profissional no setor
De acordo com o ILAE, a violência digital ultrapassa a experiência dentro dos jogos e impacta diretamente a formação de talentos e o desenvolvimento profissional de mulheres em toda a cadeia dos games e eSports.
O estudo identificou reflexos em diferentes áreas de atuação, incluindo atletas profissionais, narradoras, casters, criadoras de conteúdo, desenvolvedoras, pesquisadoras, gestoras e profissionais da comunicação especializada.
Outro dado que chamou atenção dos pesquisadores envolve os mecanismos de denúncia. Entre as participantes que relataram episódios de violência, 78,9% afirmaram não ter recebido qualquer resposta após denunciar os casos. Além disso, apenas 2,3% consideraram que suas denúncias foram efetivamente resolvidas.

Conforme Carlos Gama, presidente do ILAE, o estudo busca ampliar o debate sobre cidadania digital, direitos humanos e governança nos ambientes online.
“O crescimento dos esportes eletrônicos na América Latina depende diretamente da construção de ambientes seguros, inclusivos e sustentáveis. Não existe desenvolvimento econômico sólido em um ecossistema marcado pela exclusão e pela violência.”
A vice-presidente do instituto e atleta profissional de CS2, Marcella “Cellax” Ferreira, afirma que os números refletem uma realidade conhecida pelas mulheres que atuam no cenário competitivo.
“A violência não afeta apenas a experiência dentro do jogo. Ela destrói oportunidades, afasta talentos e compromete a formação de futuras profissionais dos eSports. Quando uma mulher deixa de competir, de criar conteúdo ou de seguir carreira por medo ou exaustão, o ecossistema inteiro perde.”
Para Marianna Muniz, diretora de eventos do ILAE, o setor precisa avançar na construção de ambientes mais seguros.
“Não é possível falar em crescimento sustentável enquanto mulheres ainda precisam esconder a própria voz para conseguir jogar ou trabalhar em segurança. Precisamos transformar o ambiente competitivo em um espaço mais inclusivo, seguro e profissional.”
Estudo busca apoiar políticas de inclusão e segurança
A pesquisa contou com apoio institucional do Club de Regatas Vasco da Gama, da Federação do Estado do Rio de Janeiro de Esportes Eletrônicos (FERJEE), da Rede Lusófona de Pesquisadores em Esportes Eletrônicos (RELUPE) e da Revista Brasileira do Desporto Eletrônico (RBDE).
De acordo com o ILAE, o painel representa um marco para a produção de conhecimento sobre direitos humanos, inclusão e segurança digital nos eSports latino-americanos. O objetivo é contribuir para a formulação de políticas públicas, estratégias de governança e iniciativas voltadas à criação de ambientes mais seguros para mulheres.
Sobre o ILAE
O Instituto Latino-Americano de Esports (ILAE) atua no desenvolvimento dos eSports na América Latina por meio de iniciativas ligadas à pesquisa, integridade esportiva e governança, educação, inovação, inclusão social, políticas públicas e desenvolvimento econômico.
Por fim, a organização desenvolve estudos, projetos e ações estratégicas voltadas ao fortalecimento dos games e dos eSports como setores relevantes para a economia criativa, a tecnologia, a educação e a transformação social na região.




